resenha do filme O Auto da Compadecida

meu filme brasileira favorito: cómico, inteligente, creativo, e feliz

Este filme é uma maravilha.  Tem uma das personagens mais entretidas que conheço no cinema brasileira (João Grilo), e tem uma sequência que occorre no além-mundo que ninguem deve perder. 

Agora, a substância!  João Grilo e Chicó são amigos de faz muito tempo, pobres, que passam a vida enganando aos outros e sobrevivendo graças aos seus engenhos.  Chicó se enamora da filha do homem mais rico da vila.  João Grilo tenta orquestrar uma sequência de enganos para ocasionar a união.  Mas o prazer deste filme – e é um prazer puro – se encontra em cada engano, no jogo de palavras dos dois e na imaginação de João Grilo em particular.  Até olhar seu semblante e sua postura provoca prazer: tem a cara e o modo de andar de um vigarista que goza da vida.  (Quando outra personagem defende a ele, dizendo que mentiu toda a vida só para sobreviver, responde João, Mas eu gostava!) 

Observa este diálogo entre Chico e sua namorada:

– Se você tivesse pelo menos um diploma

– Eu sou doutor em ciéncias ocultas, filosofia dramática, pediatria charlatánica, pedagogia dogmática, astrologia electrónica.

E a sequência suprema do filme ocorre quando várias pessoas no filme morrem e aparece o diabo, o Senhor, e a Virgem, e é um espectáculo que logra ser tanto cómico como comovedor.

Demostrando o incestuoso que é o cinema brasileiro, o ator Marco Nanini quase mata ao Selton Mello tanto aqui como – uns anos depois – em outro filme, Lisbela e O Prisioneiro.  (Os dois filmes são excelentes.)

Nota sobre o conteúdo:  Este filme realmente não tem nada de ofensivo.  Existe a implicação do adulterio, a ameaça da violência, e alguns muito religiosos podem não gostar da apresentação de Jesus Cristo, embora eu achei tudo feito com respeito.

resenha do livro: O Clube dos Anjos, por Luis Fernando Veríssimo

prontos a morrer pela gula: mas pelas mãos de quem?

Faz muitos anos, Daniel é membro de um clube de amigos que se reúne uma vez ao mês para comer.  São aficcionados pela comida fina.  Começaram como jovens, todos com dinheiro e possibilidades, e continuaram enquanto cada um deles desperdiçava suas oportunidades e deixaram suas vidas em alguma forma de ruinas.  Já o clube está a ponto de dissolver depois de traições e brigas.  Mas Daniel se encontra com um estrangeiro misterioso – um tal Lucídio – que oferece cozinhar ao grupo.  Se reúnem, e no próximo dia, um dos membros aparece morto!  Foi por causa da comida?  Ninguém sabe, pelo menos até o próximo jantar.   Segue um conto de vinganza, de ira, e – mais que nada – de gula.

Este romance é criativo, com a prosa interessante e entretido que já esperamos de Veríssimo.  Não achei o misterio tão entretido como Borges e os Orangutangos Eternos (pelo mesmo autor).  Mas talvez se trata de questões até mais fundamentais da natureza humana.  Eu o recomendo.

Gostei desta passagem:

– Por que ele está nos envenenando?

– Você não está fazendo a pergunta certa.

– Qual é a pergunta certa?

– Por que nós estamos nos deixando envenenar?

Nota sobre o conteúdo:  Ocorrem alguns assassinos (todos menos um “fora da tela”).  Também Daniel, o narrador, fala de uns contos que ele escreveu sobre umas xifópagas lésbicas, mas a dizer verdade, é suficientemente absurdo para ficar pouco gráfico ou ofensivo (a menos que o leitor seja uma xifópaga lésbica – quero dizer – sapatão; em tal caso, talvez não gosta dessa parte).

resenha do filme Lula, O Filho do Brasil

biografia beatífica do presidente

Eu não procurava uma análise de cada fraqueza no caráter de Lula; não esperava aprender de algum lada obscuro e perturbador do presidente.  Mas admito que sim gostaria de ter visto algum sinal de que o homen fosse humano além de suas lágrimas com a morte de sua primeira esposa e a de sua mãe.  Neste filme, observamos um Lula que não cometeu nenhum erro, que só antingiu grandes coisas apesar de uma infância de carência, com um pai alcoólico.  Não discuto que ele sim tem atingido grandes coisas, mas talvez foi humano também em algum momento do processo. 

Essa falta de fraqueza faz que o filme ande com o peso profundo de sua propria virtude.  Também sofre do mesmo problema que sofrem muitos filmes biográficos:  Sacrificam uma narrativa suave porque precisam saltar de evento importante a evento importante.  Ainda gostei mais ou menos; sabia pouco da vida de Lula e gostei de aprender alguns detalhes.  Só que em varios momentos, teria gostado de aprendê-las um pouco mais rápidamente.

Com toda essa gravidade, quando vi a Gloria Pires representando a mãe de Lula, admito ter mantido no meu coração a esperança secreta que ela e o futuro presidente iam trocar de corpos em algúm momento do filme para fazer-me rir um pouco mais.*  Teria sido um pouco destoante, mas acho de uma forma boa.  Não quero revelar a conclusão do filme, mas não aconteceu.  Uma pena.

Nota sobre o conteúdo:  Este filme não tem nada de ofensivo menos – tal vez – a hagiografia.

* Assim como ela fez nos filmes Se Eu Fosse Você 1 e 2.

resenha do filme Lisbela e o Prisionero

[To read about this fun film-lovers’ movie in English, here is a nice summary in the New York Times.]

uma homenagem de pancadaria boba ao cinema e as finais felizes

Leléu (representado pelo excelente Selton Mello) é um caixeiro viajante, ator, safado, e mulherengo. Inaura é sua conquista mais recente.  Frederico é o esposo corneado de Inaura que por acaso é assassino de aluguel.  Lisbela (Débora Falabella) é uma inocente escoladona de assistir ao cinema que se enamora de Leléu e por fim capta seu coração perambulante. Douglas é o noivo corneado de Lisbela.  Ôxe!  Não se surpreende que amonta uma confusão enorme e cômica.

A cena iniciante estabelece o tono para o filme.  Lisbela e Douglas entram no cinema e Lisbela diz: “Eu adoro esta parte.  A luz vai se apagando devagarzinho. O mundo lá fora vai se apagando devagarzinho. Os olhos da gente vão se abrindo. Daqui a pouco a gente não vai nem mais lembrar que está aqui.”  Então segue uma mistura de cinema e da realidade que nunca se divide por completo.  O filme está cheio de amor verdadeiro, amor não tão verdadeiro, heróis improváveis, vilões muito ruins, e umas personagens secundárias que proveem alívio cômico.  As vezes achei até bobo demais, mas gostei no total.

Numa cena, uma das conquistas de Leléu diz “Por que você não me leva contigo?” Ele responde, “Eu já te carrego no meu coração.” Vou fazer a mesma coisa com pelo menos uma parte deste filme: O sorriso enorme de Lisbela quando ela se senta no cinema já é final feliz suficiente.

Nota sobre o conteúdo: O filme fala do sexo e implica que acontece fora da tela mas não mostra nada da nudez.  Numa cena, há uma paródia duma cena na vida de Jesus Cristo, que pode ofender a alguns religiosos.

Aqui está o trailer.

resenha do filme Se Eu Fosse Você 2

um desapontamento depois de seu predecessor bobo mas encantador

Uns anos depois do primeiro filme (e se você ainda não assistiu ao primeiro filme, bom, se eu fosse você, iria assistir aquele primeiro que foi muito melhor), a relação entre o casal (Helena e Claudio) tem deteriorado de novo até a decisão de se separar. Depois de uma discussão barulhenta sobre a divisão dos bens, Claudio e Helena… trocam de corpos de novo [surpresa!]. Varias situações cômicas seguem: Helena – no corpo de Claudio – participa num jogo de futebol e tem medo da bola; Claudio – no corpo de Helena – “ajuda” a planejar o casamento de sua filha.

No primeiro filme, além das cenas cômicas (que foram muito mais cômicas que as cenas neste filme), observamos a reconciliação gradual do casal, como os dois chegaram a apreciar o um para o outro de novo. Neste filme, quase não observamos nada da relação mesma. Só temos as cenas cômicas e depois, alguns mal-entendidos ficam aclarados e o casal fica enamorado justo a tempo para uma cena de dança coreografada no casamento da filha. Também fiquei desapontado que este filme se rebaixou para fazer varias piadas da homosexualidade potencial de Helena no corpo de Claudio, enquanto o filme anterior evitou esse humor por completo. Não vale assistir: fica com o primeiro.

Nota sobre o conteúdo: Este filme tem classificação 10 no Brasil embora fale do sexo e da gravidez entre adolescentes. Não ocorre o sexo no filme mesmo mas o casal transa fora da tela. Nada forte.

resenha do filme Vidas Secas (1963)

lenta, seria vista (mas com esperança) da vida dos pobres no nordeste do Brasil

O filme começa e termina com quase a mesma cena: um homem, uma mulher, seus dois meninos, andando a pe. No tempo entre o começo e ao final, as vezes a vida melhora (o homem acha um trabalho de vaqueiro) e piora (o homem vai para a carcere por causa de um policial corrupto), mas a fundação, o permanente na vida da família, é o andar, o procurar alguma coisa, tomara que seja uma coisa melhor mas pelo menos algumas coisa. E se a melhorias não permanecem, pelo menos também não permanecem os azares da vida, porque a familia está determinada a sobreviver, seja qual seja o custo. O filme bem apresenta a perspectiva de todos na familia: a desesperação do homem quando a policia e os políticos se aproveitam dele, a desesperação quieta da mulher enquanto tenta manter a família comendo, o aborrecimento das crianças. Este último se reflete no fato de que se fala pouco no filme: de que há de falar?

Na última parte deste filme, uma das crianças pergunta para sua mãe: Como é o inferno? É um lugar para onde vão os condenados, cheio de fogueira, espeto quente. Uns momentos depois, o menino olha para o mundo em volta dele e observa: Inferno. Logo sua mãe sai a recolher agua de uma poça patética. Inferno.

Mas apesar de tudo, a familía acha esperança. Depois de tudo, há uma grande diferença entre a cena inicial e a final. Ao final, depois de achar e deixar um trabalho, de receber abuso da polícia, a mulher e seu homen andam falando do futuro, da possibilidade de – algum dia – de dormir numa cama de couro. De – como disse a mulher – ser gente.

Nota de conteúdo: Este filme se pode assistar por qualquer idade. Agora bem, provavelmente as crianças (e alguns dos adultos) vão dormir pela lentidão do filme, mas pelo menos não vão se ofender.